Um dia comum com você
Quando nada de novo acontece
O último e-mail que te enviei, escrevi mais ou menos assim:
Vivemos mais um dia comum. Nada de extraordinário aconteceu. Acordamos e, como sempre, você madrugou. Mesmo sendo sábado, mesmo não tendo cocola, como você gosta de dizer às sextas à noite. Acordou me chamando com um bom humor que ainda me surpreende, isso você puxou do seu pai, sempre penso brigando com o meu próprio sono buscando energia não sei de onde pra começar o dia quando lá fora ainda é noite. Do quarto, fomos direto pra sala e, desde já, confesso que me rendi às telas porque gosto de alongar essas manhãs com você. Mas é chegar no sofá que já ouço o primeiro de muitos “mãe, quero manana”. Banana é, definitivamente, sua fruta favorita. Te juro, se deixar você come uma penca de uma vez.
Mamãe, tá tudo bem? Me olhou fundo nos olhos, perto o suficiente para não me deixar desviar o olhar. Não precisei responder, você se aproximou ainda mais, se aninhou no meu colo e ali ficou. Juro que pensei em mentir, responder qualquer coisa que contrariasse o que de fato eu estava sentido. Mas logo percebi que se o fizesse você saberia que eu estava mentindo. Optei pelo silêncio. Você também. Esse aconchego não durou nem cinco minutos, mas foi tempo suficiente para eu perceber que não sei mentir pra você. Ainda bem.
O dia seguiu sem que nada de extraordinário acontecesse: brincamos, passeamos, ficamos em casa. Fiz comida pra gente, você comeu como se fosse o melhor banquete do mundo. Mesmo sabendo que não era, ri e me gabei das minhas não habilidades culinárias que tanto te agradam. Depois, você andou de bicicleta feito doido na sala de casa. Me entregou pizza e flores imaginárias como se fossem coisas que chegam juntas ao mesmo tempo e na mesma intensidade. Mais brincadeira, janta, banho e cama. Antes, é claro, teve o que já amo em você, um pedido que às vezes me deixa com preguiça, mas me faz acreditar que teremos sempre algo em comum: mãe, vamo lê?
Lemos umas três vezes o mesmo livro e depois dormimos.
Nada de novo aconteceu, sequer saímos do nosso bairro.
Mas te vi por instantes infinitos num dia absurdamente comum.
Absurdamente comum.
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Quando inventei essa história de te escrever e-mails, a única coisa que estabeleci como “regra” era a de que te contaria sobre os dias comuns, nada de focar nos diferentes. Minha ideia era te contar tudo o que vivemos nos dias mais ordinários da vida. Na minha cabeça, os grandes eventos se registram mesmo que a gente não fale sobre eles, não os comente. É certo que em algum lugar, algum momento, alguém vai te perguntar sobre dia das mães, páscoa, natal, dia dos pais, das crianças. E você vai contar do seu jeito, como viu e viveu tudo isso. Não precisa que eu te conte nada sobre essas datas, elas estarão na sua cabeça de algum modo porque estão na minha também.
Mas e os dias em que nada acontece? O que será feito desse espaço de tempo que ninguém se interessa? Essa coisa que acontece entre tudo o que nada acontece não seria a vida? Será que você vai se lembrar de algo sem importância? De algo que não desperta a curiosidade de ninguém?
Olho pra você brincando num canto da sala e me pego pensando no que você fará com esse intervalo de tempo tão insignificante que é matéria puro dos dias comuns. Me interesso por essa sua memória. Mas e você, me pergunto?
Depois que você nasceu, passei a contar pra mim mesma que tudo o que vivemos dura pra sempre, não acaba. Me engano, eu sei. Mas gosto de acreditar que a memória, nesses casos, não nos trairá e seremos capazes de lembrar de tudo, sem deixar escapar nada para trás. Foi daí que vieram os e-mails: eu quero te contar tudo, sim, é verdade; mas no fundo, o que quero mesmo é não me esquecer do menor detalhe desde que você chegou.
Eu poderia tirar fotos. Fazer vídeos. Criar uma pasta infinita e imensa de momentos bobos e bonitos que vivemos juntos. Poderia, mas não o faço. Até tiro fotos e me arrisco nos vídeos, mas não sou muito boa com isso e todas as vezes que me lembro de pegar o celular o instante já passou. E puff, me perco na certeza de que minha memória não vai falhar.
E então escrevo. Criei uma conta de e-mail pra você. Veja só, sei sua senha e tudo e, se quiser, posso vasculhar o que tem lá. Mas do mesmo modo que inventei de não falar dos grandes eventos, estabeleci que não posso de jeito nenhum acessar a essa conta. E, por isso, tratei logo de esquecer a senha. Pensando bem, não sei se fiz bem em esquecer o único modo de acessar a tal conta. Ou melhor, sei sim, porque no fundo não sei muito bem o que vou fazer com isso até que você possa acessar a essas cartas do passado. Um livro, talvez? Um espaço aqui, na minha Newsletter?
Não sei…
Algumas vezes, me pego pensando se um dia vou te contar sobre isso, que fiz isso, te escrevi, contei dos nossos dias, registrei em palavras o que a memória poderia apagar.
Não sei se vou te contar, mas é certo que se me perguntar, não saberei esconder.
Amém por isso.


Que lindo, Malu <3
que coisa mais linda, malu